domingo, 1 de julho de 2012

O sabor da maturidade



Ninguém nunca me contou que essa idade guardava qualquer magia, como dizem guardar os 15, ou 18, ou 21. Na verdade, eu me lembro de ter sentido a vida mudar aos 16, aos 19, e agora aos 23. Se eu tivesse um diário, eu escreveria que 23 anos foi a idade que me deu a completa noção de que eu já tenho um passado, apesar de muito futuro pela frente. Senti que, hoje, estou entre saudades e expectativas. Mas preocupada, acima de tudo, com o presente.

Me olhei no espelho e vi que, apesar da mesma cara de criança (que ainda me faz exigirem que eu apresente RG por aí), me aparecem as primeiras marcas de maturidade, digamos assim. Marcas de que a gente viveu. E aí, me fez lembrar desse último aniversário, foi diferente. Eu estava bem menos preocupada com festa, com quem estaria presente, quem ligaria. Fiquei pensando, apenas, que a vida mudou e que o futuro chega mesmo, sutil, rápido e doce, se assim a gente permitir.

Percebi que os familiares têm estado cada vez mais separados. E que nunca mais seremos uma família morando debaixo do mesmo teto. Almoçar reunidos aos domingos, a mesa cheia de primos e tios, aquela rotina de tantos anos: coisa rara. Por outro lado, não há alegria maior que reencontrar todos. Não importa se o encontro dura um dia, dois ou três. O que vale é a sensação revigorante que isso nos causa. Quando me vi aos 23, parece que a admiração e amizade pela minha família aumentara cada vez mais. 

Quando parei para contar nos dedos, tenho um grande amigo em cada canto do Brasil e são poucos os que ainda ficaram perto, ali naquela coisa que a gente chama de cotidiano. Por outro lado, entendi que eles não precisam estar nele. Que não preciso falar com eles toda semana por telefone ou pela internet para saber que estão bem. Eles me procuram quando não estão, assim como eu o faço. Assim como quando a gente precisa conversar ou contar uma coisa que só eles entendem. Porque precisa de contexto. E isso se constrói com muito tempo, cumplicidade e experiências.

Que os encontros e reencontros sempre acontecem. Aqui ou em outro canto do mundo. E são mais especias que antes, porque a gente parece reencontrar com a gente mesmo: com nossas histórias, nosso passado, nossos sentimentos. Porque a gente sabe que aquilo é de vez em quando, e por isso, aproveitamos cada segundo. E também porque, ainda bem, a cada encontro vejo que cada amigo está melhor. A maturidade tem lá seu sabor especial.

Aliás, essa preciosa idade nos faz ser chatos. Ou seletos. Ou, na verdade, a gente vê que nosso tempo é curto demais pra se gastar com quem não vale tanto à pena, ou com assuntos que te causam certo desgaste ou com coisas que te deixam sem paciência. Porque é fato, tenho menos paciência que nos tempos passados. Menos paciência para coisas corriqueiras que costumava fazer antes e hoje, não mais. Talvez até seja legal,consigo encontrar comigo mesma, em vários momentos, algo que não fazia antes.

Ao longo desses 23 anos são tantas pessoas especiais para dividir tempo, milhas e intimidades que a gente tem que saber para quem ligar e chamar para tomar uma cerveja. Aliás, já pensei algumas vezes que não quero mais fazer nenhuma amizade.Além de pensar que os atuais, já me bastam, tem ainda que pensar que são tantas pessoas queridas para rever, que não dá para conhecer outras mais e conseguir reencontrar com todas. Vou estar sempre ausente com alguém.

Percebi que não tenho mais a vida universitária que pertencia antes. Nem saúde para tomar porre (com bebidas que costumava beber, menos ainda), durante a semana e acordar firme no dia seguinte para assistir às aulas sem nem cochilar. Isso é estranho. Caminhando pela reta, olho uma menininha de chinelo e shorts que me faz lembrar de mim, há três, quatro anos. Quando olho pra mim, visto uma camisa, uma calça jeans e um sapato fechado. Depois de nos cruzarmos, eu vou trabalhar. Ela, com certeza deve ir tomar umas com a galera. É, o tempo passou.

O que bate é uma saudade dessas que não amargam. Tenho doces lembranças e boas histórias de cada ano. Pode parecer mentira, mas desde criança eu carrego a necessidade de curtir cada fase da minha vida, de acordo com o que ela proporciona. E tenho feito desde então.

Acho que essa vozinha que me dizia para aproveitar cada momento e cada oportunidade que a vida dava me fez bem. Sinto que esgotei cada fase da vida (poucas, ainda) e permiti que as mudanças fossem sempre bem vindas, embora tivesse um pouco de medo. Hoje vejo que a sorte existe (pra mim, em pouca quantidade). Mas mais ainda consequência do que você faz por si e pelos outros. Olho para trás e penso que só não quero decepcionar uma pessoa: eu mesma. Penso quem eu queria ser há quinze, dez ou cinco anos. Se soube encontrar a medida certa entre deixar a vida me levar e ter as coordenadas dela.

Pensei que, aos 23 anos, aquelas decisões que você teve que tomar rápido e outras, nem tanto, começam a ser mais definitivas que antes. Alguns caminhos que você poderia ter escolhido, pessoas que você poderia ter se tornado, namorados que poderiam ter se tornado maridos acabam ficando para trás. Mas, ao contrário do que a Rafaela de 15 anos atrás achava, é permitido, aliás, muito bem vindo viver incertezas aos 23. Achava que a vida se resolveria por essa idade e que daí para frente seria só tocar o mesmo rumo até ficar velho. Não penso mais assim.

Vejo, antes, um sintoma geral da galera que tá na casa dos 20. Quando começam a pensar que a gente tá ficando adulto e vamos sossegar o facho, a vida tá só começando. Cada vez menos medo de errar, tentar de novo, recomeçar, refazer. Cada vez mais vontade de conhecer, relacionar, viver, mudar... mudar e mudar. Uma vontade de não deixar nenhum dia passar em branco. De não viver uma vida medíocre.

Observando fotos de pessoas idosas, nos deparamos com tantas rugas que acabam nos deixando impressionados. Rugas que guardam tanta vida, sentimentos. E aí, penso: é tudo que mais quero, muitas rugas. Por trás de cada, uma história. Porque o que me faz acordar feliz nos dias atuais, é pensar no que vivi até agora. Em toda maturidade que a vida me proporcionou, meio precoce talvez, mas hoje agradeço por isso. E, penso em tudo que a vida ainda guarda pra mim. Por fim, confesso que gosto do rumo que a vida tomou e que a cada dia, mesmo fraquejando certas vezes, tenho mais coragem pra chegar onde sempre quis. E as histórias... é o que vou levar do que vivi! 



(*)Nádia Junqueira - modificações (Rafaela Sena)

2 comentários:

  1. que texto lindo Rafa, acho que foi seu melhor texto até hj! tudo nele tem a ver comigo, eh exatamente como eu tenho pensado da vida ultimamente, amei!

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  2. Amoura, vc arrasou demais!
    É bem assim que a vida vai transformando a gente por dentro. É uma mudança inevitável, não adianta resistir. O importante é saber viver cada fase e tirar o melhor dela!
    Mandou bem por reativar o blog!
    Saudades! <3

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